Quinta-feira, Setembro 01, 2011

E se eu te disser que o antigo é o porvir assombrado do eu de agora?

"O armário

É um armário largo, esculpido; o carvalho escuro,
Muito antigo, tem este ar bondoso das velhas gentes;
O armário está aberto, e sua sombra derrama obscuro
Como onda de vinho velho, perfumes atraentes;

Está cheio, é uma bagunça de velhas velharias,
De roupas cheirosas e amarelas, de trapos
De mulheres ou crianças, desbotadas rendarias,
Chales da avó pintados com grifos, guardanapos;

— É nele que se acharia medalhões, cachos
De cabelos brancos ou loiros, retratos, penachos
Cujo perfume se mistura a perfumes de frutas.

— Ó armário dos velhos tempos, tu sabes de muitas lutas,
E querias contar histórias, e ranges feito gavetas
Quando se abrem lentamente tuas grandes portas pretas."

Arthur Rimbaud

Segunda-feira, Junho 27, 2011

Narrativa difusa
Esquizofrênica Lua
Alternando fogo e água
Mas ela é de Aquário!
É um brinde naquele sonho
Chega Maria quando em verdade é Dora
Negativa, neve e
O branco do silêncio
...caótico
Jazzy, agora entendo bem o que ela falava, essa coisa de brinde for two total.

Domingo, Junho 12, 2011

O que é isso? Essa incerteza, esse afã
O que é?
Essa conexão estranha, etérea
Essa saudade ruim, do que nunca aconteceu
É o arrependimento, a dor?
A cura não tem respostas
Não há rostos, não há mais quadros figurativos
Apenas lampejos, memória desfigurada
O que é isso, senão um risco em mim

Sexta-feira, Maio 27, 2011

Enxerga a minha vida, é sua
Esfrega em mim essa ânsia
Essa anseio tolo que é de verdade
Finge que de tudo ainda resta mais
Enxerga
Me sufoca de falta de ar
Nua, à tua espera
Era teu o que um dia prometi
E além, do que o resto previa
Existia o ali, no meio do seu eu
Que era em mim

Quinta-feira, Abril 07, 2011

"Sí, pero quién nos curará del fuego sordo, del fuego sin color que corre al anochecer por la rue de la Huchette, saliendo de los portales carcomidos, de los parvos zaguanes, del fuego sin imagen que lame las piedras y acecha en los vanos de las puertas, cómo haremos para lavarnos de su quemadura dulce que prosique, que se aposenta para durar aliada al tiempo y al recuerdo, a las sustancias pegajosas que nos retienen de este lado, y que nos arderá dulcemente hasta calcinarmos."


Julio Cortázar em Rayuela.

Quarta-feira, Abril 06, 2011

"Quando criança, certa vez adoeci
De fome e medo. De meus lábios tirei
Escamas duras, e lambi meus lábios. Lembro-me
Ainda do seu gosto, salgado e fresco.
E o tempo todo eu andava, andava, andava.
Sentei-me na escada da entrada para me aquecer,
Fiz meu caminho delirante como se dançasse
À música do apanhador de ratos, rumo ao rio. Sentei-me
Para me aquecer na escada, tremendo o tempo todo.
E minha mãe apareceu e acenou, e parecia
Próxima, mas eu não conseguia chegar até ela:
Fui em sua direção, ela estava a sete passos,
Acenando para mim; fui em sua direção, ela estava
A sete passos e acenava para mim.
Eu sentia muito calor,
Desabotoei o colarinho e deitei-me,
Então clarins soaram, a luz bateu de leve
Em minhas pálpebras, cavalos em tropel, a minha mãe
Estava voando sobre a estrada, acenou para mim
E foi embora…
E agora eu sonhava com
Um hospital, branco como as macieiras,
E um lençol branco puxado até ao queixo,
E um médico branco olhando para mim,
E uma enfermeira branca ao pé da cama,
E as suas asas se movendo. E lá eles ficaram.
E minha mãe veio, acenou para mim -
E foi embora…"



Arseni Alexandrovich Tarkovski

Domingo, Março 13, 2011

Os olhos macios me permitem entrar. Me invadem o brilho e a vida, infestam. Mergulho num mar cálido, pleno e confortante. Sou eterna em todos os segundos que me são permitidos. Choro os beijos ainda não dados. Temo o tempo curto ainda não vivido. A pressa, é tão somente de vida...