21 junho 2017

quero ouvir Djavan no radinho de vovó, me embalar na rede em dia quente e acordar com ânsias de pecadinho mid twenties

nunca desperdice verões com pouca roupa

03 junho 2017

insular

menina dos cabelos cor de ardósia
teu olho encaracolado parece
me enxerga
os fiozinhos eletrizados
da alma
esse novelo quente feito de pele
y pernas entrelaçadas
uma constelação inteirinha pintada no teu corpo
tão alvo
feito o branco que  nunca vi
o topo do Monte Fuji
convertendo-nos
em lava
em neve
em nós
as lembranças todas que parecemos compartilhar
como se já houvera te cantado todas as histórias
do pulque e das jararacas bebês
você me pergunta o porquê de um mapa tatuado nas costas
- precisar sempre de ajuda para decifra-lo -
lembrar que há um caminho
que é necessário voltar
a qualquer lugar
que pertença ao ventre, às entranhas
eu que vou, eu que fluo
y desaguo em camas feito ilhas
arquipélago da leveza
hoje amanhecemos mais velhas
e com ganas de riscar poemas na pele uma da outra
- 10 minutos para o despertador -
regressivamente
testemunhamos a submersão da ilha
daqui de dentro miro tus ojos multicor
y os teus cabelos encaracolando a cada 60 segundos descontados
o ar rarefeito
rareando até o mergulho termidor
meus fios brancos sobre tua pele branca
teu nome
                   ecoando     
                                     nos últimos 3 segundos de ar.

20 maio 2017

promessa ao Rio

foto: bárbara

turva violência
hibridação
me intoxico desse glúten em sacos plásticos
das lastimosas frases de apresentadores de televisão
esse “boa noite” nefasto
que minha avó adora responder
como se de alguma maneira 
isso fosse revolucionar
a lógica unidirecional das mídias de massa
outrora feita por caixas pretas
quando vovô trouxe dos Estados Unidos
a primeira TV colorida do bairro
- na rua Belize em Marechal Hermes
tempo de verões amenos no Rio de Janeiro
em que ventava
e os carnavais custavam menos - mas ainda - carnes
negras e despidas
há uma tristeza escorrida no ar
Santa Teresa me dá medo
e não é pelo fuzil que mi mira os olhos quando subo a escadaria
entristeço pelo quase desejo de não voltar
pela decadência das tuas esquinas
que não inspiram mais sambas
ou coqueluches de subúrbio
eu sei, essa lamúria é pessimista
e chata
mas é tão somente um prólogo
pra anunciar que ainda assim

ainda assim

eu volto

eu volto
pros teus paralelepípedos do tempo do Rei
pros teus canais aterrados da Praça XV à Quinta da Boa Vista
pras tuas camas quentes, teus corpos imensamente quentes
eu volto pra tua cerveja estupidamente gelada
pra tua mania de inventar gambiarra onde não tem
e por fazer samba

       nunca defendi nada como o teu samba

nem a minha mãe
e nem o Botafogo
os meninos da rua Belize eram todos botafoguenses
e guardavam as guimbas 
pra quando chegasse 
o Carnaval
y suas lantejoulas

a coisa mais linda do Rio
não é a vista
o Cristo Redentor
ou o arpoador às seis da tarde 

a coisa mais linda
do Rio de Janeiro
é poder se sujar sem culpa
sem saber se o sal é de suor
dor
ou mar

30 abril 2017

rumo à Vrindavan

hoje acordei triste
pois faz frio aqui – dentro - na montanha
a Bossa Nova em francês combina
o vazio e a brevidade das folhas verde-escuro
estou atrasada para a feirinha de orgânicos do centro
ato falho com ingestão de inseticidas
pequeno suicídio adolescente
bobinho como esse poema de sol em peixes/lua em câncer
uma ode ao tempo que escorre
vou escrever até sorrir
até decolar dessa base, essa cidade astral
-       penso em me mudar de atlântida
mentira! já confessei essa incapacidade
tenho formigamento na ponta dos dedos
onde me brotam as folhinhas d’aroeira
3 banhos para salvar
xangô
oxossi
oxum
mel puro de abelhas nativas
originárias de Vrindavan
minha nova cidade porto-exílio
que desespero esperar esse trem que nunca chega
estou esquecendo lentamente a tonalidade dos teus olhos
o cheiro da esquina entre a nuca e o ombro
lavanda
lavanda
tudo que me suja os pés y o sexo
lavanda
embebendo os lençóis, os meus pelos fartos
cobertores
pois faz frio dentro
da montanha
e buscamos incessantemente algum vulcão adormecido
algo com que cessar esse sopro anil
minha cor preferida é vermelho
decoolage sur la tua pele lune
em 4 dias estaremos eternas
uivando como novembro em Niterói
em que éramos felizes, heroicamente felizes
as samambaias, as modinhas de samba e salivas intermináveis
memória-redenção
âncora pra evitar naufrágios de balões
esse ar todo que de tão imenso escapa

19 abril 2017

os oráculos

dizem que irei me atirar de um abismo aos 28 anos
saturno retornou carregando cinzas
que enterrei no mar da antióquia
estamos esperando a nau do grande divisor de águas
- eu que não entendo nada do calendário maia nem questiono
as grandes eras
aquário
kali
à espera do cavaleiro que nunca vem
falei de oráculos ali em cima
das linhas escuras da minha mão
que dizem ser de marinheira
justo eu que tengo miedo
- y no entanto mergulho sem medir distâncias
a leitura do baralho cigano indica que teremos tempos áridos
de um secura inquebrantável
é preciso muita fé para ser ateu
é preciso desacreditar de todos os oráculos
regurgita-los e dizer “não cumpro”
a isso prestam-se seus códigos
sus prediciones
a esse cisco em meu olho
que me atropela enquanto escolho em qual rua dobrar
quando de fato pouco importa
se acertam
se o que afirmo presentifica-se
tenho pouca ou nenhuma vontade de abandonar
o I-ching
as Runas
a borra de café lida por uma mulher síria em Nova York
confesso, essa provocação me cocega o céu da boca
em Delfos defumávamos a linha do tempo com salvia californiana
não resta um movimento para acreditarmos no real
que não seja ficção
então juntamos num imenso roteiro:
a leitura do tarô
as bulas papais
e a mandala de intenções para 2017
é preciso muita muita fé
para ser qualquer coisa
sobretudo um oráculo
que não prediz nada