19 abril 2017

os oráculos

dizem que irei me atirar de um abismo aos 28 anos
saturno retornou carregando cinzas
que enterrei no mar da antióquia
estamos esperando a nau do grande divisor de águas
- eu que não entendo nada do calendário maia nem questiono
as grandes eras
aquário
kali
à espera do cavaleiro que nunca vem
falei de oráculos ali em cima
das linhas escuras da minha mão
que dizem ser de marinheira
justo eu que tengo miedo
- y no entanto mergulho sem medir distâncias
a leitura do baralho cigano indica que teremos tempos áridos
de um secura inabitável
é preciso muita fé para ser ateu
é preciso desacreditar de todos os oráculos
regurgita-los e dizer “não cumpro”
a isso prestam-se seus códigos
sus prediciones
a esse cisco em meu olho
que me atropela enquanto escolho em qual rua dobrar
quando de fato pouco importa
se acertam
pouco importa se me atemorizam
se o que afirmo se presentifica
tenho pouca ou nenhuma vontade de abandonar
o I-ching
as Runas
a borra de café lida por uma mulher síria em Nova York
confesso, essa provocação me cocega o céu da boca
em Delfos defumávamos a linha do tempo com salvia californiana
não resta um movimento para acreditarmos no real
então juntamos num imenso roteiro:
a leitura do tarô
as bulas papais
e a mandala de intenções para 2017
é preciso muita muita fé
para ser qualquer coisa
sobretudo um oráculo
que não prediz nada


07 abril 2017

reinado


fotos: Roberto Ferrero

o que é
aquilo um homem
as linhas tortas no dorso
pedra de limo
corrente de retorno
o que é aquilo
um-homem avança
galga posições
em xeque
diante das proliferações de algas vermelhas
vocifera
“eu que nunca tive o mar em minhas_”
escorro
e ajoelhado empunho
cruzes
palavreados muito feios
pra escorrer com sal
arpão afiado
“eu que nunca tive o mar em minha”
solidão
laço a presa
que de tão miúda
me pede colo
e com a piedade possível,
choramos os três
a presa – o mar – meus olhos
nossa existência é um filme breve
aquilo é um homem
diriam os especialistas
eu digo
aquilo é passado
aqui não me chamo mais
e assim rarefeito
passo a ser vento
soprando as caravelas melancólicas
sempre em busca de verões
estou desejando adeus
àquilo, um homem
aqui
um
nome

         em extinção.



22 março 2017

foto: david harvey


hoje, as samambaias despertaram enoveladas, feito bolas de feno - faroeste VHS. encosto o ouvido em seus esporos, rego suas linhas úmidas com meu sangue de pulso. 120 beats por minuto. tanto tempo y ainda assim hesitamos(porque você insiste, blue? porque não rasga aquela minha foto 3x4?). depois do último episódio, reprogramei. verto chás de hierbas como se a goela fosse um ventre. grito em braile estamos ilhadas estamos ilhadas nesse quarto ! é que certamente seríamos felizes - somos? - caso fosse possível. caso encontrássemos a curva dos segundos. naturalmente falta pouco e nessa despedida à galope prefiro acordar transmutada num grande caranguejo.

ando de lado,
mergulho.

15 março 2017

vórtice aberto
aquoso, entre as frestas possíveis do meu abismo-id
regras - desde os 12 - as de fechar as pernas
obedecida, revoltosa
pego a br-101, sem carteira eu grito
eu não sei o que grito, não alcanço a esquina de mim
labirinticamente te chamo pelo whatsapp
você online não retorna
eu offline choro no cantinho possível do meu quarto na Barra Seca
vejo as montanhas, nós de pés descalços
as índias
os índios
nós todos transmutados nas panteras possíveis
nos ursos possíveis
nos humanos toleráveis
o df aberto, cimentado enquanto cantam as moças do século XII
e eu meramente menina, meramente adulta
furo as paredes
penduro troféus, de arrebatar
buda
shiva
cristo

e ainda que o preto velho peça café
pratico a abstinência sólida de quem sente as entranhas processarem o medo corrente
faço um bebê de pano, que embalo

tenho medo da umidade e da asa delta

e saudade, do beijo que não demos
na ponte que não atravessamos
na cidade que ainda não destruímos
as querelas zapotecas e a tarde vazia da rua dez de dezembro
que disparate
tanta pimenta pra pouca pele!


hoje cedo pensei em me mudar de Atlântida
só o destino
quente -
                 arrefece un rêve

06 fevereiro 2017

las abuelitas convierten-se en mariposas


vovó me disse que é 48% indígena
os outros 52 são adivinhações
do tempo que ela queria fugir com o circo ou ser jogadora de vôlei
com seus míseros um
y cinquenta e dois
a idade que sua mãe morreu
trazendo o coração na boca
e com ele as borboletas
- as almas das abuelitas -
vovó não é tão boa como nos filmes
       seu sarcasmo exarcebado
       sua pulsão quase vingativa
       y um olhar de quem vê de cima
nunca tive medo de vovó
do seu narcisismo pueril
em dizer “vê que ainda me paqueram?”
a graça dessas miudezas
de passar o tempo
no colo tão pequenino
na contramão de uma galé
com mil remadores
amontoados na sua cama 
de princesa retirante de subúrbio
fresca de ar condicionado
y lavanda
lembro de nós caminhando
em qualquer estradinha
do interior de qualquer cidade
sem pressa ou temor do fim do mundo
uma cumplicidade besta de amigas
que dividem a cerveja
y o pôr do sol vermelho
feito aquele inverno em Belém
- em que choviam todos os dias e não tínhamos sombrinhas
o açaí pintando meu dentes
negros os meus cabelos suados na nuca
e vovó ali, indicando o caminho de Monte Alegre do Pará
onde brincava à beira-rio
esperando os homens voltarem do seringal
- ela rasgaria com ímpetos de revolução possível -
o uniforme do colégio de freiras
em que as freiras queriam ser marinheiras
e os marinheiros desejavam muito que elas os fossem
aceitando todos - com sofreguidão - o destino
tatuado nas linhas das mãos de vovó
que não fugiu com o circo
tampouco graduou-se em Geografia
- ela,
       que apenas cozeu vestidos
       limpou escadas
       y temperou banquetes muito pobres
de um centro espírita em Bento Ribeiro

(nosotras, abuelita
de certo ainda iremos desbravar os oceanos mais distantes
guardados no mapa antigo
das linhas de tuas mãos)