E se eu te disser que o antigo é o porvir assombrado do eu de agora?
"O armário
É um armário largo, esculpido; o carvalho escuro,
Muito antigo, tem este ar bondoso das velhas gentes;
O armário está aberto, e sua sombra derrama obscuro
Como onda de vinho velho, perfumes atraentes;
Está cheio, é uma bagunça de velhas velharias,
De roupas cheirosas e amarelas, de trapos
De mulheres ou crianças, desbotadas rendarias,
Chales da avó pintados com grifos, guardanapos;
— É nele que se acharia medalhões, cachos
De cabelos brancos ou loiros, retratos, penachos
Cujo perfume se mistura a perfumes de frutas.
— Ó armário dos velhos tempos, tu sabes de muitas lutas,
E querias contar histórias, e ranges feito gavetas
Quando se abrem lentamente tuas grandes portas pretas."
Arthur Rimbaud
Bentivicio
Quinta-feira, Setembro 01, 2011
Segunda-feira, Junho 27, 2011
Domingo, Junho 12, 2011
Sexta-feira, Maio 27, 2011
Quinta-feira, Abril 07, 2011
"Sí, pero quién nos curará del fuego sordo, del fuego sin color que corre al anochecer por la rue de la Huchette, saliendo de los portales carcomidos, de los parvos zaguanes, del fuego sin imagen que lame las piedras y acecha en los vanos de las puertas, cómo haremos para lavarnos de su quemadura dulce que prosique, que se aposenta para durar aliada al tiempo y al recuerdo, a las sustancias pegajosas que nos retienen de este lado, y que nos arderá dulcemente hasta calcinarmos."
Julio Cortázar em Rayuela.
Julio Cortázar em Rayuela.
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Quarta-feira, Abril 06, 2011
"Quando criança, certa vez adoeci
De fome e medo. De meus lábios tirei
Escamas duras, e lambi meus lábios. Lembro-me
Ainda do seu gosto, salgado e fresco.
E o tempo todo eu andava, andava, andava.
Sentei-me na escada da entrada para me aquecer,
Fiz meu caminho delirante como se dançasse
À música do apanhador de ratos, rumo ao rio. Sentei-me
Para me aquecer na escada, tremendo o tempo todo.
E minha mãe apareceu e acenou, e parecia
Próxima, mas eu não conseguia chegar até ela:
Fui em sua direção, ela estava a sete passos,
Acenando para mim; fui em sua direção, ela estava
A sete passos e acenava para mim.
Eu sentia muito calor,
Desabotoei o colarinho e deitei-me,
Então clarins soaram, a luz bateu de leve
Em minhas pálpebras, cavalos em tropel, a minha mãe
Estava voando sobre a estrada, acenou para mim
E foi embora…
E agora eu sonhava com
Um hospital, branco como as macieiras,
E um lençol branco puxado até ao queixo,
E um médico branco olhando para mim,
E uma enfermeira branca ao pé da cama,
E as suas asas se movendo. E lá eles ficaram.
E minha mãe veio, acenou para mim -
E foi embora…"
Arseni Alexandrovich Tarkovski
De fome e medo. De meus lábios tirei
Escamas duras, e lambi meus lábios. Lembro-me
Ainda do seu gosto, salgado e fresco.
E o tempo todo eu andava, andava, andava.
Sentei-me na escada da entrada para me aquecer,
Fiz meu caminho delirante como se dançasse
À música do apanhador de ratos, rumo ao rio. Sentei-me
Para me aquecer na escada, tremendo o tempo todo.
E minha mãe apareceu e acenou, e parecia
Próxima, mas eu não conseguia chegar até ela:
Fui em sua direção, ela estava a sete passos,
Acenando para mim; fui em sua direção, ela estava
A sete passos e acenava para mim.
Eu sentia muito calor,
Desabotoei o colarinho e deitei-me,
Então clarins soaram, a luz bateu de leve
Em minhas pálpebras, cavalos em tropel, a minha mãe
Estava voando sobre a estrada, acenou para mim
E foi embora…
E agora eu sonhava com
Um hospital, branco como as macieiras,
E um lençol branco puxado até ao queixo,
E um médico branco olhando para mim,
E uma enfermeira branca ao pé da cama,
E as suas asas se movendo. E lá eles ficaram.
E minha mãe veio, acenou para mim -
E foi embora…"
Arseni Alexandrovich Tarkovski
Domingo, Março 13, 2011
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