22 julho 2017

domingo a mata atlântica toda refestelada em inverno
os trópicos esse ano deram uma trégua
na contramão da minha memória
ping-pong
uma cortada lateral
a bola fora da mesa
eu fora da foto
você, naquela praia que um dia sonhamos
veranear na velhice
mas beibe, acabaram com a tão sonhada aposentaria
meu desejo – que outrora era queijo
y gozo
já se configura em raízes líquens que teimaram em surgir
na brevidade dos meus pés
a cartografia dessa planta
- tatuada nas minhas costas -
já se passaram 6 meses
o bebê nasce em novembro
“é escorpiano!” – dizem os oráculos
eu (de)fumo sálvia sobre o meu ventre
anoto as coordenadas
latitude oposta ao teu coração
nos afastamos pouco a pouco
nossos olhares cruzados na BR101
fazem menos sentido
que a promoção de avocados na feirinha de sábado
matar uma lembrança
organizar os potes de plástico
riscar uma linha no horizonte
uma linha vermelha
o ponto fora da curva
que esse final exige

06 julho 2017

ciudad de México, 14 de noviembre de 2016

,

estou me despedindo, engulo o Pulque num só gole enquanto miro o horizonte de magueis. minha linfa - agora convertida em agave - pulsa, e limpa os chips as programações dispensáveis. abro janelas, uma a uma caem as margens, é como enxergar pela primeira vez sem miopia. à moda de Miguilim, sorrio até a alma com todos os dentes e agora neva tão bonito, colorindo as estradas de uma branco tão imenso. um branco que nunca vi, estradas que jamais percorri e ainda assim, a sensação de saber exato o n d e pisar. todas as folhas, os vórtices, os apocalipses. essa hecatombe necessária para seguir livre sobrevivendo.

21 junho 2017

quero ouvir Djavan no radinho de vovó, me embalar na rede em dia quente e acordar com ânsias de pecadinho mid twenties

nunca desperdice verões com pouca roupa

03 junho 2017

insular

menina dos cabelos cor de ardósia
teu olho encaracolado parece
me enxerga
os fiozinhos eletrizados
da alma
esse novelo quente feito de pele
y pernas entrelaçadas
uma constelação inteirinha pintada no teu corpo
tão alvo
feito o branco que  nunca vi
o topo do Monte Fuji
convertendo-nos
em lava
em neve
em nós
as lembranças todas que parecemos compartilhar
como se já houvera te cantado todas as histórias
do pulque e das jararacas bebês
você me pergunta o porquê de um mapa tatuado nas costas
- precisar sempre de ajuda para decifra-lo -
lembrar que há um caminho
que é necessário voltar
a qualquer lugar
que pertença ao ventre, às entranhas
eu que vou, eu que fluo
y desaguo em camas feito ilhas
arquipélago da leveza
hoje amanhecemos mais velhas
e com ganas de riscar poemas na pele uma da outra
- 10 minutos para o despertador -
regressivamente
testemunhamos a submersão da ilha
daqui de dentro miro tus ojos multicor
y os teus cabelos encaracolando a cada 60 segundos descontados
o ar rarefeito
rareando até o mergulho termidor
meus fios brancos sobre tua pele branca
teu nome
                   ecoando     
                                     nos últimos 3 segundos de ar

20 maio 2017

promessa ao Rio

foto: bárbara

turva violência
hibridação
me intoxico desse glúten em sacos plásticos
das lastimosas frases de apresentadores de televisão
esse “boa noite” nefasto
que minha avó adora responder
como se de alguma maneira 
isso fosse revolucionar
a lógica unidirecional das mídias de massa
outrora feita por caixas pretas
quando vovô trouxe dos Estados Unidos
a primeira TV colorida do bairro
- na rua Belize em Marechal Hermes
tempo de verões amenos no Rio de Janeiro
em que ventava
e os carnavais custavam menos - mas ainda - carnes
negras e despidas
há uma tristeza escorrida no ar
Santa Teresa me dá medo
e não é pelo fuzil que mi mira os olhos quando subo a escadaria
entristeço pelo quase desejo de não voltar
pela decadência das tuas esquinas
que não inspiram mais sambas
ou coqueluches de subúrbio
eu sei, essa lamúria é pessimista
e chata
mas é tão somente um prólogo
pra anunciar que ainda assim

ainda assim

eu volto

eu volto
pros teus paralelepípedos do tempo do Rei
pros teus canais aterrados da Praça XV à Quinta da Boa Vista
pras tuas camas quentes, teus corpos imensamente quentes
eu volto pra tua cerveja estupidamente gelada
pra tua mania de inventar gambiarra onde não tem
e por fazer samba

       nunca defendi nada como o teu samba

nem a minha mãe
e nem o Botafogo
os meninos da rua Belize eram todos botafoguenses
e guardavam as guimbas 
pra quando chegasse 
o Carnaval
y suas lantejoulas

a coisa mais linda do Rio
não é a vista
o Cristo Redentor
ou o arpoador às seis da tarde 

a coisa mais linda
do Rio de Janeiro
é poder se sujar sem culpa
sem saber se o sal é de suor
dor
ou mar