Quarta-feira, Abril 06, 2011

"Quando criança, certa vez adoeci
De fome e medo. De meus lábios tirei
Escamas duras, e lambi meus lábios. Lembro-me
Ainda do seu gosto, salgado e fresco.
E o tempo todo eu andava, andava, andava.
Sentei-me na escada da entrada para me aquecer,
Fiz meu caminho delirante como se dançasse
À música do apanhador de ratos, rumo ao rio. Sentei-me
Para me aquecer na escada, tremendo o tempo todo.
E minha mãe apareceu e acenou, e parecia
Próxima, mas eu não conseguia chegar até ela:
Fui em sua direção, ela estava a sete passos,
Acenando para mim; fui em sua direção, ela estava
A sete passos e acenava para mim.
Eu sentia muito calor,
Desabotoei o colarinho e deitei-me,
Então clarins soaram, a luz bateu de leve
Em minhas pálpebras, cavalos em tropel, a minha mãe
Estava voando sobre a estrada, acenou para mim
E foi embora…
E agora eu sonhava com
Um hospital, branco como as macieiras,
E um lençol branco puxado até ao queixo,
E um médico branco olhando para mim,
E uma enfermeira branca ao pé da cama,
E as suas asas se movendo. E lá eles ficaram.
E minha mãe veio, acenou para mim -
E foi embora…"



Arseni Alexandrovich Tarkovski

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