Alice está sentada, observa o rio que corre macio. Sente o cheiro da terra e um vento quase quente lhe bagunça os cabelos. Percorre o espaço com o olhar e se sente bem. Um sopro de vida percorre todo seu corpo, se despe e entra no rio, frio e fresco. Mergulha de forma leve, percebendo na pequena correnteza um movimento intenso e fluido. Fecha os olhos e deixa-se infestar pela sensação de pertencimento à agua, ao natural.
Alice está sentada, pega o troco no caixa e o entrega à moça impaciente do outro lado do balcão. Observa a rua movimentada, suja de poeira e gente. Seca um suor que escorre da testa com as costas da mão e suspira. O calor e o cheiro de fritura do bar misturam-se ao som da TV. Esforça-se para lembrar do cheiro do rio, não consegue e sente que uma lágrima percorre o rosto misturando-se ao sal do suor. Se sente muda, sem vida, entorpecida por um falta que parece não caber no peito.
O ônibus dá voltas em torno de um praça antiga, carcomida pelo tempo. Alice fecha os olhos e imagina como deve ser bom entrar dentro de um rio num dia quente de verão. Dá o sinal e desce seguindo até o bar. Na TV passa uma reportagem sobre o rio São Francisco que ela acompanha com atenção. Faz contas mentais, mas se perde em meio ao calor. Observa as pessoas apressadas na rua cinza e sente sono.
Alice nunca viu o Mar. O rio, ela só viu na TV. Os sonhos ela guarda dentro do peito, misturados à vastidão de vazio e sono. Alice sou, é você.
2 comentários:
Asas na terra e pés no céu.
quanto mais quente mais perto..
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